domingo, 3 de junho de 2012

A última conversa de Che Guevara

O ex-general boliviano Gary Prado Salmón, o homem que capturou o guerrilheiro em 1967 conta hoje como foram as suas últimas horas e sobre o que conversaram antes de entregá-lo para ser fusilado.
Prado está em uma cadeira de rodas desde 1981 por um  disparo supostamente acidental de outro oficial no meio de uma operação. O militar é um dos acusados de ser parte de um suposto complô em 2009 contra o presidente Evo Morales. Desde então, não pode sair de Bolívia e está em prisão domiciliar, embora continue trabalhando como professor universitário.

"Ernesto "Che" Guevara"parece que foi ferido e capturado por tropas do Exército em um sangrento combate ocorrido a uns sete quilômetros ao norte da localidade de Higueras, na Bolívia.", contava o jornal espanhol ABC no dia 10 de outubro de 1967. O homem que havia levado a cabo tamanha ação e que fora encarregado de vigiar o lendário guerrilheiro até levá-lo a seus superiores foi então o capitão Gary Prado Salmón.
Transformado em um dos militares mais respeitados das Forças Armadas Bolivianas, o ex-general de 73 anos, contou em uma entrevista realizada pela fundação Instituto Prisma, como foram as últimas horas de Che, sob sua vigilância e as conversas que mantiveram antes de que fora executado.
Prado Salmón, que tinha então 28 anos e dirigia a companhia Ranger, era um dos 1.500 homens que o Exército havia destinado a combater a guerrilha de Guevara, que lutava na montanha e na selva para derrubar a ditadura militar do general René Barrientos. "Os guerrilheiros estavam andando em um território que não conheciam, com atitudes estranhas - conta o ex-general - Che passava horas do dia tentando que seus combatentes aprendessem quechua, em uma zona onde se falava guarané. De que lhes serviriam o quechua se os camponeses falavam guarané ou castelhano?"
Foi possivelmente esse mesmo desconhecimento de terreno que  fez Che fracassar um ano e meio antes no Congo, embora ele não parecia enxergar assim, ao julgar pelas conversas com Prado Salmón:" Saiu dececpcionado de África porque não pôde fazer nada. Quando esteve preso comigo e eu lhe perguntei como havia sido em África, ele respondeu que lá, eles ainda estavam todos pendurados nas árvores. Que tinham sido problemas tribais e não ideológicos."
Depois de fracassar no Congo - "não houve um só rasgo de grandeza nessa retirada", escreveu em seu diário de 1965 - Guevara foi para Bolívia com o objetivo de seguir apoiando os movimentos revolucionários além de Cuba. Mas fracassou um vez mais; e desta vez, fora a última.
"Abandonaram o Che. Foi um abandono total - garante Prado Salmón - Segundo as versões que circularam, Che  incomodava muito em Cuba, pela atitude um pouco prepotente e violenta." No dia 8 de outubro de 1967, Guevara foi encurralado e ferido de bala na perna esquerda durante o combate de Quebrada del Yuro. Prado e a sua companhia o capturou pouco depois com outros guerrilheiros bolivianos como Simeón Cuba e os trasladaram a La Higuera, onde foram reclusos na escola. 
"Durante as horas que esteve sob a minha responsabilidade, depois de ser capturado, e até que o entreguei ao comandante da divisão, tivemos várias conversas", conta o general já aposentado, que se encarregara de ir "durante toda a noite, a cada uma ou duas horas, para ver como estava, o que precisava, dar-lhe cigarros, café e comida".
Foi nesses encontros que Prado aproveitou para lhe fazer algumas perguntas, em uma conversa que, segundo o ex-general, transcorrera tranquila e com alusões a Fidel Castro:


Prado Salmón: «O que veio fazer na Bolívia? O senhor não soube que já havíamos tido uma revolução e que fizemos a reforma agrária?».
Che: «Sim, eu soube. Já havia vindo aqui... estive na Bolívia em 53. Mas tinha muito para fazer».
Prado Salmón: «Claro, mas deixe que nós fazemos. Uma coisa que não gostamos é que venham gente de fora para dizer o que temos de fazer».
Che: «Sím, talvez nos equivocamos».
Prado Salmón: «Bom, mas quem tomou a decisão de vir à Bolívia? O senhor?».
Che: «Não. Não foi eu... foram outros níveis».
Prado Salmón: «Mas que outros níveis? Fidel?
Che: «Outros níveis…», respondeu sem querer dizer nada mais. 

Conta o ex-general que desde a terceira ou quarta conversa, "pegamos um pouco mais de ritmo, ele viu que nós o tratávamos com respeito e com tranquilidade". Em um momento dado, Che quis saber o que iriam fazer com ele. "O senhor vai ser julgado", respondeu sem saber realmente que ele seria executado. "Até então - conta - todos os prisioneiros que tínhamos capturado estavam sendo julgados em Camiri, como Regis Debray e Ciro Bustos. Ninguém tinha sido executado, estavam sendo cumpridas todas as normas".
Conta Prado que teve de explicar para Che que ele não seria julgado em Camiri, mas sim em Santa Cruz, o que ao seu critério "levantou-lhe o ânimo", porque era ali onde se realizavam os juízos militares: "O senhor foi capturado pelo pelotão da Oitava Divisão, e a sede da corte marcial está em Santa Cruz", lhe contou.
 Contudo, o então presidente René Barrientos e o alto mando militar tomaram a decisão de executá-lo. Não desejavam que um eventual juízo desencadeasse uma onda mundial de manifestações a favor do famoso guerrilheiro. Por isso não foi levado a Santa Cruz.
"Depois de informar ao Che que não iriam lhe julgar em Santa Cruz, me ordenaram sair para continuar com as operações militares e, quando voltei, já estava morto", confessa. Segundo conta, Che Guevara lhe havia deixado "dois relógios Rolex" para que os outros soldados não os roubassem, como já tinha acontecido em uma ocasião. "Quando soube que o haviam executado e as relações com Cuba se normalizaram, mandei os relógios para a família dele", conclui.


O corpo de Che Guevara não foi encontrado até 1997, três décadas depois, em um pequeno povoado de Vallegrande, no leste da Bolívia. Estava em uma fossa comum com outros seis companheiros de luta.

É claro que essa é a versão do homem que o capturou. Fica a critério de cada um acreditar ou duvidar se tais conversas ocorreram realmente e se essas foram as palavras e informações que trocaram. 

2 comentários:

Aline Paulino disse...

Desde a primeira vez que vi, guardo na memória a foto histórica do Che.
De acordo com o Alberto Korda (fotógrafo responsável por tal obra de arte), ele estava assistindo a um discurso de Fidel, ao lado de Jean-Paul Sartre (sim, minha nossa! Jean-Paul Sartre) e Simone de Bouvoir.
Korda disse que se surpreendeu com aquele olhar fixo e imponente.
Quem diria? O mundo se surpreendeu com aquele olhar.
Ernesto Guevara de la Serna é, sem dúvida, um símbolo mundial.

Aline Paulino disse...

Desde a primeira vez que vi, guardo na memória a foto histórica do Che.
De acordo com o Alberto Korda (fotógrafo responsável por tal obra de arte), ele estava assistindo a um discurso de Fidel, ao lado de Jean-Paul Sartre (sim, minha nossa! Jean-Paul Sartre) e Simone de Bouvoir.
Korda disse que se surpreendeu com aquele olhar fixo e imponente.
Quem diria? O mundo se surpreendeu com aquele olhar.
Ernesto Guevara de la Serna é, sem dúvida, um símbolo mundial.