terça-feira, 31 de maio de 2011

Nada como sentir na pele

"Apesar de tudo, ainda acredito na espécie humana"
(Anne Frank, menina judia assassinada pelos nazistas)

Hail Mott!!!

Venho neste espaço denunciar algo muito triste e revoltante que ocorreu a minha pessoa e gostaria de fazer alguns apontamentos.
Resolvi escrever este aritgo por vários motivos, mas o principal é o de tirar dúvidas a respeito de uma agressão homo/transfóbica por mim sofrida no ultimo sábado, quando retornava tranquilamente de uma festa de aniversário. E também por acreditar na enorme importância das pessoas que sofrem este tipo de violência tornarem-se portadoras do proprio grito de justiça. Na midia em geral, geralmente este tipo de assunto é apresnetado por terceiros, por maus jornalistas que têm o hábito de distorcer a realidade e pior, coisificar os individuos, como se fossemos coisas, meros pedaços de carne, usados como materia para noticia. Espero não ser injusta com ninguém.

Peço desculpas por ter demorado mais de uma semana para publicar este relato, mas se demorei tanto foi pelo fato de que sofri uma terrivel pressão psicológica, a qual foi capaz de fazer fugira as palavras. E por que trata-se de um tema que não se pode apresentar com exatidão, mesmo usando todas a palavras do mundo.

Voltava apressadamente por volta das 4 horas da manhã junto a alguns companheiros, de uma festa de aniversário que havia ocorrido no Largo da Ordem, centro histórico curitibano e espaço de socialização de jovens que não têm acesso as boates e clubes de classe média, Corríamos pois um colega nosso se apresentava embriagado –nada demais, acredito- e nos dirigíamos a algum hospital ou procurávamos um modo de minimamente colocá-lo num ônibus e despachá-lo para casa em segurança. Foi nesse momento que, ao ver ao longe a aproximação de algumas pessoas, me adiantei para pedir socorro. Não sabia mas quem vinha pela rua escura (estávamos na altura do Cemitério Municipal) era meu algoz. Tinha o sangue nos olhos, as faces retorcidas pelo ódio, o ímpeto de descontar sua ira contra um alvo mais fraco.

A cena que seguiu sinceramente gostaria de esquecer. Aos gritos de “vou bater num viado, começando por esse aqui”, veio na minha direção. Tentei fugir, mas ao virar as costas senti o peso do primeiro chute, covarde, nas costas, e meu corpo caindo na calçada. Neste momento, só pensei em seguir a Cartilha : defender a cabeça e os pontos vitais, enquanto gritava pedindo por socorro e clamando misericórdia por parte dos agressores (foram 3 pelo que me contaram, na ânsia por me defender só conseguia enxergar um deles), pedia perdão desesperadamente pelo crime que havia cometido- o crime de ser “viado”, ao mesmo tempo em que jurava minha improvável inocência- por ser “trans” trajava vestimentas do “sexo oposto”, “escandalosas”, como diria a minha mãe (afinal a culpa é sempre da vítima).

2 dias depois, ainda sem rumo , transtornada pelo choque da violência e sem saber para onde me dirigir e o que fazer, fui a faculdade e lá encontrei com alguns amigos, que, indignados pela situação resolveram me acompanhar na via crucis burocrática. Passamos, em primeiro lugar, na PRAE (Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis) da UFPR, que não tomou rigorosamente providência nenhuma. Apesar de não estar devidamente matriculada neste semestre, o que foi pedido a instituição UFPR, não era nada além de um atendimento humanitário a alguém que precisava de um apoio simples. Como meus amigos também estão inscritos no que se convencionou como segmento LGBT, temíamos discriminação ou mesmo truculência por parte da policia quando fossemos a delegacia (o que de fato aconteceu). Mas até mesmo a isto a instituição se negou, alegando problemas burocráticos.

Não teríamos conseguido sequer registrar o Boletim de Ocorrência se não fosse a presença do professor Pedro Bodê, cujo nome faço questão de incluir no meu relato, juntamente com meus sinceros aplausos e minhas Moçoes de Louvor. O atendente do 1º teve a falta de humanidade de se negar a nos atender e registrar o caso, alegando que não poderia fazê-lo a menos que reconhecesse o agressor. Ora, não é função da Polícia investigar? Estamos pagando pesados impostos, para que as instituições façam “corpo-mole” ajudando na fuga desse tipo de criminoso, que, alias, faz o serviço sujo do sistema, tirando os ‘viados’ de circulação? Fico pensando nos inúmeros casos de travestis que alem de terem que se contentar com a imposição da prostituição como ganha-pão, ainda ficam a mercê de atentados deste tipo, surras com extintor, pauladas de desconhecidos, tiros, assassinados. E sempre a culpa é delas que “aprontam”.

Em meio a vociferações, ameaças simbólicas e abusos de poder, só fmos atendidos na delegacia quando entrou o professor, junto com um advogado ligado a Comissão de Direitos Humanos. Ai só faltou o delegado nos oferecer cafezinho...

Ora, sabemos que estes casos costumam ficar impunes no nosso pais. Mas na minha concepção, e posso estar muito enganada. Ao me permitir fazer a queixa os policiais não estaria me prestando nenhum favor, pelo contrário, além de serem pagos com dinheiro do contribuinte (mal pagos, muitas vezes, façamos a justa ressalva) ainda teriam com meu relato a oportunidade de prender um provável futuro assassino ou genocida homofóbico, caso houvesse vontade política. Foi pensando nisso, que numa espécie de “dever cívico” de denunciar um maníaco perigoso (vai que, em vez de um ‘viado’ ele pegue o filho de um Policial Civil, por engano), que me dirigi a delegacia.

No outro dia fui com meus amigos e o advogado fazer o exame de Corpo de Delito. Mais uma vez tive que deslocar pessoas, pois tinha medo de ser discriminada, ou de ouvir comentários “carinhosos” como aquele que teve de ouvir um colega nosso, agredido a anos atrás, da boca de uma enfermeira- “agora, vê se aprende”; ou talvez até algo pior, já que no recinto do consultório o médico teria acesso ao meu corpo. Mas tudo transcorreu como de praxe. Minha suposta identidade de gênero em momento algum fora respeitada. “’nome social’, o que é isso, mesmo?” . Mediram com uma régua os meus ferimentos, com o mesmo grau de humanidade e com o mesma objetividade científica que se mede uma rua ou um pedaço de carne. Mas, como disse, fora apenas um exame de rotina.

Só não entendo por que ate agora nem o SUS nem o IML conseguiram me garantir acesso a um raio-X do nariz, que creio ter sido fraturado. E agora permitam voltar a minha subjetividade. A uma semana que não consigo me olhar no espelho. Meu nariz torto é um símbolo, uma marca de que a “Milicia Heteronormativa” conseguiu fazer seu trabalho infame no meu corpo. Meu rosto é um aviso muito claro aos meus companheiros: “Cuidado, você pode ser o próximo”. Se o objetivo desse verdadeiro grupo de torturadores era me atingir psicologicamente e moralmente, acertaram em cheio. Tenho medo de sair a noite e até durante o dia. Deixei de freqüentar alguns eventos na faculdade, com medo de ser novamente agredida, ou me expor a alguma chacota por parte de algum colega homofóbico, politicamente correto o bastante para não destilar seu preconceito na minha frente. Cada hora do relógio, depois que o sol se põe é como um lembrete de que outro agressor, ou o mesmo, pode estar se aproximando. Ainda hoje pela manhã, quando voltava do supermercado, me vi correndo em direção a um grupo de estudantes, pois tive a sensação de estar sendo seguida por um individuo suspeito.

Vejo-me ainda mais revoltada com a situação, pois a menos de uma semana do caso de violência a que fui submetida, o Kit contra a Homofobia (que prefiro chamar de Kit anti-hipocrisia) fora cancelado pela President@ Dilma. Tenho longas criticas a fazer ao material, mas essa negativa me negaria, como profissional da educação de explicar aos meus alunos assustados o porquê da violência e a crise que sua professora estaria sofrendo. É terrível e assustador vivermos num pais no qual bandidos armados e comcerteza da impunidade, se vêm no direito de espancar outros cidadãos por motivo absolutamente torpe e não podemos sequer falar sobre a assunto por ser um “tabu” e as “criancinhas”, estudantes secundaristas criadas assistindo BBB (algumas delas serão futuramente espancadas sem saber o motivo) ,não podem discutir ‘homofobia’ em sala-de-aula.

Apoio e vejo a importância vital de se criar estatísticas cada vez mais apuradas sobre o campeão mundial de homofobia (Brasil) , mas preciso desabafar. Uma coisa é ler números frios num pedaço de papel. Outra totalmente diferente é sentir o coturno pesado do agressor, no exato momento em que desfigura violentamente o nosso rosto. Uma coisa é ter acesso a trabalhos acadêmicos que tentam explicar a motivação homofóbica de tais crimes. Outra é sentir a dor das correntadas nos braços enquanto nos agachamos junto a parede, em posição fetal, implorando por socorro e torcendo e rezando para que os agressores não puxem facas ou revólveres para “terminar ali o serviço” .

Felizmente para mim, meus companheiros acorreram em meu auxilio, me levaram a um posto de gasolina, onde recebi os primeiro cuidados, onde meu rosto foi limpo, onde tentava desesperadamente limpar meus cabelos claros tingidos de vermelho pelo sangue que jorrava de um ferimento profundo na cabeça- a população LGBT é a única que não sabe como será recebida em casa depois de um avento deste tipo e não queria deixar minha mãe preocupada. Muitos não tem essa sorte. Muitos não voltam para casa.

Espero que meu relato sirva de alerta as autoridades (mais um) você sabe onde está seu/sua filho(a)? Estaria ela ou ele procurando alguma alvo frágil para descontar sua raiva, ou sendo espancado covarde e inocentemente, simplesmente por ter um “comportamento” que alguns acham que tem o direito “divino” de punir ? E espero que as autoridades façam alguma coisa para impedir que casos destes continuem acontecendo. Seja como for aprendi da pior (ou melhor) e mais dolorosa maneira a minha grande lição sobre o que é homo/lesbo/transfobia: literalmente na ‘base do porrada’. Espero que o caro leitor ou seus próximos não precise passar pelo mesmo sofrimento.








De acordo com o último relatório do Projeto de Monitoramento de Assassinatos de Pessoas Trans, que controla o número destes tipos de crimes em 42 países, de janeiro de 2008 até dezembro de 2010, no Brasil foram cometidos 227 homicídios dos 539 registrados.
Não queremos que o governo faça propaganda de "opção sexual", queremos que apenas garanta os direitos básicos de cidadãos que são marginalizados por uma sociedade hipócrita e cruel.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Não acredito no Deus deles....

No Brasil, o que prevalece é o interesse pessoal na maioria dos políticos. O brasileiro não tem uma ideologia política e é incapaz de se identificar com seus representantes. Votam aleatoriamente sem mesmo conhecer as propostas dos candidatos. Temos eleições a cada dois anos, e mesmo antes de chegar a urna outra vez, o brasileiro não recorda do seu último sufrágio.
Sou petista de coração, pois a ideologia e as políticas adotadas por governantes deste partido  são as que me sinto mais identificado. Fiz de forma voluntária, campanha para a presidenta Dilma Rousseff, pois ela era a única candidata que poderia substituir o ex-presidente Lula. Até agora, acompanhando a forma dela de governar, estava plenamente satisfeito. Mas ontem, acabei tendo uma decepção.
Posso entender as articulações políticas e também o cenário de outra crise inventada pela imprensa. Mas usar como moeda de troca, um kit educacional que promove o respeito à diversidade, no país onde mais se cometem crimes contra as pessoas homossexuais, é inconcebível. Que a presidenta se torne refém da bancada de fundamentalistas do Congresso é preocupante para todos que desejam que o nosso país avance nos Direitos Humanos.
O kit anti-homofobia, desenvolvido pelo MEC e avalado pela UNESCO propunha reduzir nas escolas o bullying contra os homossexuais, evitando assim, que pessoas, cuja orientação sexual seja diferente do que é estabelecido como normal ( o que é ser normal?) não tenham que abandonar os estudos.
É na escola onde aprendemos o senso comum de civismo. Uma boa educação garante um cidadão civilizado e, logo, uma sociedade melhor.
Suspender o kit anti-homofobia significa um grande retrocesso. Quem ganha são os que se dizem cristãos; “defensores da família, moral e bons costumes” e que não se envergonham sequer de expressar de forma explícita suas atitudes e argumentos homofóbicos.
É inadmissível que tenhamos que ser pautados pelos dogmas religiosos dessa gente fanática e principalmente CANALHA. Porque os valores cristãos são opostos do que eles fazem cotidianamente.
Se conseguiram suspender o kit, fica mais difícil de crer que a PL 122 seja aprovada.
Confio nos valores humanos da presidenta Dilma Rousseff, sei que apesar do ambiente gris que ronda Brasília nessas últimas semanas, ela fará uma auto-crítica e irá procurar alguma forma de respeitar o voto de todos aqueles que viram nela, a esperança de viver num país menos preconceituoso.



segunda-feira, 16 de maio de 2011

Santos, bicampeão paulista 2011

Não há palavras para descrever a alegria e a emoção de ver o Santos conquistar mais um campeonato paulista. Não tem explicação, essas coisas apenas se sentem.
Parabéns aos meninos da Vila Belmiro que jogaram com superioridade. Destacar apenas a genialidade de Neymar seria uma injustiça com o resto da equipe. Todos brilharam individualmente e em grupo, fizeram um bom trabalho. Muricy tem exercido o seu papel com muita sabedoria, desde que entrou no Santos, tem feito uma diferença bastante visível.
Agora é só esperar o jogo de quarta-feira para continuar sonhando com a Libertadores!


Hino do Santos

Sou alvinegro da Vila Belmiro
O Santos vive no meu coração
É o motivo de todo o meu riso
De minhas lágrimas e emoção
Sua bandeira no mastro é a história
De um passado e um presente só de glórias
Nascer, viver e no Santos morrer
É um orgulho que nem todos podem ter
No Santos pratica-se o esporte
Com dignidade e com fervor
Seja qual for a sua sorte
De vencido ou vencedor
Com técnica e disciplina
Dando o sangue com amor
Pela bandeira que ensina
Lutar com fé e com ardor
Composição : Carlos Henrique Roma Em Julho De 1957


sábado, 7 de maio de 2011

STF reconhece união gay no Brasil

Dia 05 de maio de 2011, dia histórico não somente para a comunidade LGBT, mas também para toda a sociedade brasileira. O Supremo Tribunal Federal aprovou por unanimidade a união civil de homossexuais.
O STF exerceu com exatidão o papel real que lhe corresponde: defender a justiça. E assim foi. Estávamos cansados da omissão do legislativo, afinal, são poucos os políticos que se atrevem a defender uma causa considerada tão polêmica, visando sempre seus próprios interesses eleitorais. Também estávamos esgotados de ver nossos direitos negados, pautados por fundamentos religiosos.
Ontem, acompanhando a votação ao vivo, acabei me emocionando, como disse minha amiga Lídia, com a aula de Direito que foi dada ali, na Suprema Corte. Os direitos humanos foram defendidos de forma clara. Das inúmeras frases dos discursos dos ministros, a que adorei ter ouvido foi dita pelo Ministro Celso Mello, onde expressava que a teologia moral é respeitável, mas não pode interferir nas decisões adotadas por juízes e autoridades.
A equiparação de direitos dos casais heterossexuais aos homossexuais não afeta negativamente a ninguém. Qualquer crítica é meramente construída em questões morais concebidas por fatores religiosos. Em um Estado de direito laico e  democrático, nenhuma bíblia deve pautar a justiça.
Estou feliz com a decisão do STF. Contente em ver que meu país está evoluindo. Para que uma nação possa ser respeitada, ela deve, antes de qualquer coisa, respeitar a si mesma.
Parabenizo e agradeço a todos os militantes LGBTs, pois sem eles, permaneceríamos marginalizados e não teríamos nossos direitos reconhecidos. Ainda há um longo caminho pela frente, essa é só uma das inúmeras vitórias que precisamos para vivermos de uma forma mais justa e digna.

domingo, 1 de maio de 2011

Todo sentimento...

Às vezes existem sintonias entre duas pessoas que até pouco tempo eram desconhecidas, que acabam impressionando. Não há explicação para tantas afinidades e empatia. Como dizia Nelson Rodrigues, "Deus está nas coincidências". Talvez realmente estamos todos destinados a entrarmos e sairmos das vidas de pessoas que aparecem ao longo do nosso caminho e provavelmente há uma estrutura realmente estabelecida para que isso aconteça. Não sabemos.

"Todo sentimento
Precisa de um passado pra existir
O amor não:
Ele cria como por um encanto
Um passado que nos cerca,
Ele nos dá a consciência de havermos vivido anos a fio
Com alguém que a pouco era quase um estranho,
Ele supre a falta de lembranças por uma espécie de mágica..."
 
(Benjamin Constant)