domingo, 2 de setembro de 2012

"Talvez em outra vida, eu fui brasileira"

Eu devia ter doze ou treze anos, quando em um programa de televisão que não assistia com muito interesse, exceto quando falava dos Beatles (sempre para falarem mal deles, chamando-os pejorativamente de cabeludos), ela apareceu.
Naquela tela asséptica de rostos bem barbeados e cabelos cortadinhos, a cara dela, o seu cabelo, esses olhos cansados de haver vivido muito, principalmente de muitas noites baixando ao mais escuro de seu ser e, acima de todas essas coisas, a sua voz: a mais canalha, harmônica e sugestiva das quantas que eu já havia ouvido até então. Era Maysa Matarazzo e ancorou na Espanha, acredito que como mulher de diplomático, pelos anos sessenta, escapando-se alguma noite ou outra a cantar em qualquer dos dois clubes de jazz que havia em Madri.
A necessidade de saber mais dela e de outras pessoas que também faziam esse tipo de música em Brasil, compartilhei com outro amigo, com o que passava tardes inteiras tentando tirar os acordes de "Garota de Ipanema", no violão. A partir desse momento, começamos um longo caminho pelas lojas de música, tentando conseguir alguma produção musical de Chico, Elis, Gilberto, Caetano, etc... pedindo a algum amigo que tinha a sorte de sair da Espanha, o favor de comprar alguns discos deles. Meu deus! Eles quebraram os esquemas! Era outro conceito de estético-musical-ideológico. Minha grande ilusão, quase como uma fixação, foi conhecer o Brasil, e talvez sonhando muito, conhecê-los pessoalmente.
A oportunidade chegou no ano de 82 e, não viajando como turista, mas sim para trabalhar com músicos brasileiros. Ainda recordo a tarde em que tive que gravar "A noite dos mascarados" com Chico. A voz não saía. Era possível que isso acontecesse? Sim, claro que era possível. Finalmente eu os conheci e ainda pude compartilhar a música com eles. Finalmente me abriram as portas do conhecimento. Mas nunca, provavelmente, desvendarei o mistério das harmonias deles, essas que te tocam e te arrepiam. Talvez porque não há que entender, somente se deixar penetrar por elas. "Muito obrigado a todos eles". E uma reflexão: talvez em outra vida, eu fui brasileira.
                                                              Ana Belén, 61, cantora e atriz espanhola.



Relato escrito pela incrível Ana Belén sobre a relação que tem com a música brasileira, extraído da contracapa do livro "Canta Brasil", de Carlos Galilea Nin, publicado na Espanha em 1990.



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                                        "Noche de Máscaras", Ana Belén e Chico Buarque

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