segunda-feira, 6 de maio de 2013

Forasteiro no próprio país


O falecido neuropsiquiatra Décio Nakagawa cunhou a expressão "síndrome do regresso" para definir o "jet lag espiritual" que afeta os ex-imigrantes. Ainda estando na Espanha, li matérias relacionadas a este assunto, indicadas por uma amiga que se preocupava comigo, quando revelava a minha pretensão de retornar ao Brasil.
Apesar de conhecimento e considerar que eu tinha uma estrutura emocional para voltar ao lugar onde nasci sem maiores crises, na prática, percebi que mesmo tendo em conta todas as mazelas brasileiras e tê-las vivido a maior parte da minha vida, ainda assim acabei sendo atingido.
A reintegração ao mercado de trabalho não é tão fácil. Custa assimilar realidades diferentes. Na Espanha, onde não existia esse abismo entre classes sociais, trabalhando com uma remuneração mínima era suficiente para suprir necessidades básicas , além de ter acesso a cultura e lazer. Sempre recordo a frase de outra amiga que dizia que era preferível ser pobre na Europa do que no Brasil. E sempre soube que ela estava certa.
Mas independente das adversidades que aqui existem, aprendemos a controlar essa indignação com o tempo. Não quero perder isso, mas não posso sofrer por tudo que vejo. A falta de seriedade nas instituições e nas pessoas. Lembro constantemente das observações feitas na década de 30 do século passado por Sérgio Buarque de Holanda, no livro "Raízes do Brasil". Esse tremendo caos pela falta de organização e respeito ao próximo. Um país mestiço construído com pilares da parte negativa de cada cultura trazida para cá.
São observações genéricas sobre a situação brasileira. Mas olhando mais para dentro, o pior de tudo é o que acontece com a gente internamente.
Mesmo conservando os amigos de sempre, quando cheguei ao Brasil, senti que não me encaixava em lugar nenhum. E assim continua sendo. Quando parti, o trem continuou andando por aqui. Não há muito do que deixei há doze anos. Minha gente mais querida acabou de acostumando com a minha ausência e isso acaba sendo recíproco. São consequências naturais e comuns. O sentimento de amor e amizade segue sendo o mesmo, inalterável. Mas tenho a sensação de não estar em sintonia com os demais. E prometo que não há nenhuma queixa nessas constatações, são apenas isso, constatações.
Ter outras referências acaba impulsando o ato de comparar de forma constante, chega ser quase inevitável. Equilibrar isso é fundamental para seguir disposto a continuar. Apesar de ter duas nacinoalidades, o sentimento apátrido é mais forte que nunca.


2 comentários:

Sandra Sainz disse...

Querido Dirceu, já escutei essa mesma constatação de outras pessoas. Que a sua adaptação seja a melhor possível. Beijos com saudades! xx

DIRCEU CATECK disse...

Obrigado, Sandra. Sei que essa sensação de estar fora de lugar é comum nas pessoas que regressam aos seus lugares de origem depois de tanto tempo.
Segundo os especialistas, normalmente o tempo de adaptação em um país estrangeiro é de seis meses e de readaptação na própria terra pode durar até dois anos.
Não dramatizo e tampouco sofro por isso. É apenas uma sensação que incomoda, mas que trato de não magnificá-la.Beijos!