"Apesar de tudo, ainda acredito na espécie humana"
(Anne Frank, menina judia assassinada pelos nazistas)
Hail Mott!!!
Venho neste espaço denunciar algo muito triste e revoltante que ocorreu a minha pessoa e gostaria de fazer alguns apontamentos.
Resolvi
escrever este aritgo por vários motivos, mas o principal é o de tirar
dúvidas a respeito de uma agressão homo/transfóbica por mim sofrida no
ultimo sábado, quando retornava tranquilamente de uma festa de
aniversário. E também por acreditar na enorme importância das pessoas
que sofrem este tipo de violência tornarem-se portadoras do proprio
grito de justiça. Na midia em geral, geralmente este tipo de assunto é
apresnetado por terceiros, por maus jornalistas que têm o hábito de
distorcer a realidade e pior, coisificar os individuos, como se
fossemos coisas, meros pedaços de carne, usados como materia para
noticia. Espero não ser injusta com ninguém.
Peço desculpas por
ter demorado mais de uma semana para publicar este relato, mas se
demorei tanto foi pelo fato de que sofri uma terrivel pressão
psicológica, a qual foi capaz de fazer fugira as palavras. E por que
trata-se de um tema que não se pode apresentar com exatidão, mesmo
usando todas a palavras do mundo.
Voltava apressadamente por volta das 4 horas da manhã junto a alguns
companheiros, de uma festa de aniversário que havia ocorrido no Largo
da Ordem, centro histórico curitibano e espaço de socialização de
jovens que não têm acesso as boates e clubes de classe média, Corríamos
pois um colega nosso se apresentava embriagado –nada demais, acredito-
e nos dirigíamos a algum hospital ou procurávamos um modo de
minimamente colocá-lo num ônibus e despachá-lo para casa em segurança.
Foi nesse momento que, ao ver ao longe a aproximação de algumas
pessoas, me adiantei para pedir socorro. Não sabia mas quem vinha pela
rua escura (estávamos na altura do Cemitério Municipal) era meu algoz.
Tinha o sangue nos olhos, as faces retorcidas pelo ódio, o ímpeto de
descontar sua ira contra um alvo mais fraco.
A cena que seguiu
sinceramente gostaria de esquecer. Aos gritos de “vou bater num viado,
começando por esse aqui”, veio na minha direção. Tentei fugir, mas ao
virar as costas senti o peso do primeiro chute, covarde, nas costas, e
meu corpo caindo na calçada. Neste momento, só pensei em seguir a
Cartilha : defender a cabeça e os pontos vitais, enquanto gritava
pedindo por socorro e clamando misericórdia por parte dos agressores
(foram 3 pelo que me contaram, na ânsia por me defender só conseguia
enxergar um deles), pedia perdão desesperadamente pelo crime que havia
cometido- o crime de ser “viado”, ao mesmo tempo em que jurava minha
improvável inocência- por ser “trans” trajava vestimentas do “sexo
oposto”, “escandalosas”, como diria a minha mãe (afinal a culpa é
sempre da vítima).
2 dias depois, ainda sem rumo , transtornada
pelo choque da violência e sem saber para onde me dirigir e o que
fazer, fui a faculdade e lá encontrei com alguns amigos, que,
indignados pela situação resolveram me acompanhar na via crucis
burocrática. Passamos, em primeiro lugar, na PRAE (Pró-Reitoria de
Assuntos Estudantis) da UFPR, que não tomou rigorosamente providência
nenhuma. Apesar de não estar devidamente matriculada neste semestre, o
que foi pedido a instituição UFPR, não era nada além de um atendimento
humanitário a alguém que precisava de um apoio simples. Como meus
amigos também estão inscritos no que se convencionou como segmento
LGBT, temíamos discriminação ou mesmo truculência por parte da policia
quando fossemos a delegacia (o que de fato aconteceu). Mas até mesmo a
isto a instituição se negou, alegando problemas burocráticos.
Não
teríamos conseguido sequer registrar o Boletim de Ocorrência se não
fosse a presença do professor Pedro Bodê, cujo nome faço questão de
incluir no meu relato, juntamente com meus sinceros aplausos e minhas
Moçoes de Louvor. O atendente do 1º teve a falta de humanidade de se
negar a nos atender e registrar o caso, alegando que não poderia
fazê-lo a menos que reconhecesse o agressor. Ora, não é função da
Polícia investigar? Estamos pagando pesados impostos, para que as
instituições façam “corpo-mole” ajudando na fuga desse tipo de
criminoso, que, alias, faz o serviço sujo do sistema, tirando os
‘viados’ de circulação? Fico pensando nos inúmeros casos de travestis
que alem de terem que se contentar com a imposição da prostituição como
ganha-pão, ainda ficam a mercê de atentados deste tipo, surras com
extintor, pauladas de desconhecidos, tiros, assassinados. E sempre a
culpa é delas que “aprontam”.
Em meio a vociferações, ameaças
simbólicas e abusos de poder, só fmos atendidos na delegacia quando
entrou o professor, junto com um advogado ligado a Comissão de Direitos
Humanos. Ai só faltou o delegado nos oferecer cafezinho...
Ora,
sabemos que estes casos costumam ficar impunes no nosso pais. Mas na
minha concepção, e posso estar muito enganada. Ao me permitir fazer a
queixa os policiais não estaria me prestando nenhum favor, pelo
contrário, além de serem pagos com dinheiro do contribuinte (mal pagos,
muitas vezes, façamos a justa ressalva) ainda teriam com meu relato a
oportunidade de prender um provável futuro assassino ou genocida
homofóbico, caso houvesse vontade política. Foi pensando nisso, que
numa espécie de “dever cívico” de denunciar um maníaco perigoso (vai
que, em vez de um ‘viado’ ele pegue o filho de um Policial Civil, por
engano), que me dirigi a delegacia.
No outro dia fui com meus
amigos e o advogado fazer o exame de Corpo de Delito. Mais uma vez tive
que deslocar pessoas, pois tinha medo de ser discriminada, ou de ouvir
comentários “carinhosos” como aquele que teve de ouvir um colega nosso,
agredido a anos atrás, da boca de uma enfermeira- “agora, vê se
aprende”; ou talvez até algo pior, já que no recinto do consultório o
médico teria acesso ao meu corpo. Mas tudo transcorreu como de praxe.
Minha suposta identidade de gênero em momento algum fora respeitada.
“’nome social’, o que é isso, mesmo?” . Mediram com uma régua os meus
ferimentos, com o mesmo grau de humanidade e com o mesma objetividade
científica que se mede uma rua ou um pedaço de carne. Mas, como disse,
fora apenas um exame de rotina.
Só não entendo por que ate
agora nem o SUS nem o IML conseguiram me garantir acesso a um raio-X do
nariz, que creio ter sido fraturado. E agora permitam voltar a minha
subjetividade. A uma semana que não consigo me olhar no espelho. Meu
nariz torto é um símbolo, uma marca de que a “Milicia Heteronormativa”
conseguiu fazer seu trabalho infame no meu corpo. Meu rosto é um aviso
muito claro aos meus companheiros: “Cuidado, você pode ser o próximo”.
Se o objetivo desse verdadeiro grupo de torturadores era me atingir
psicologicamente e moralmente, acertaram em cheio. Tenho medo de sair a
noite e até durante o dia. Deixei de freqüentar alguns eventos na
faculdade, com medo de ser novamente agredida, ou me expor a alguma
chacota por parte de algum colega homofóbico, politicamente correto o
bastante para não destilar seu preconceito na minha frente. Cada hora
do relógio, depois que o sol se põe é como um lembrete de que outro
agressor, ou o mesmo, pode estar se aproximando. Ainda hoje pela manhã,
quando voltava do supermercado, me vi correndo em direção a um grupo de
estudantes, pois tive a sensação de estar sendo seguida por um
individuo suspeito.
Vejo-me ainda mais revoltada com a situação,
pois a menos de uma semana do caso de violência a que fui submetida, o
Kit contra a Homofobia (que prefiro chamar de Kit anti-hipocrisia) fora
cancelado pela President@ Dilma. Tenho longas criticas a fazer ao
material, mas essa negativa me negaria, como profissional da educação
de explicar aos meus alunos assustados o porquê da violência e a crise
que sua professora estaria sofrendo. É terrível e assustador vivermos
num pais no qual bandidos armados e comcerteza da impunidade, se vêm no
direito de espancar outros cidadãos por motivo absolutamente torpe e
não podemos sequer falar sobre a assunto por ser um “tabu” e as
“criancinhas”, estudantes secundaristas criadas assistindo BBB (algumas
delas serão futuramente espancadas sem saber o motivo) ,não podem
discutir ‘homofobia’ em sala-de-aula.
Apoio e vejo a importância
vital de se criar estatísticas cada vez mais apuradas sobre o campeão
mundial de homofobia (Brasil) , mas preciso desabafar. Uma coisa é ler
números frios num pedaço de papel. Outra totalmente diferente é sentir
o coturno pesado do agressor, no exato momento em que desfigura
violentamente o nosso rosto. Uma coisa é ter acesso a trabalhos
acadêmicos que tentam explicar a motivação homofóbica de tais crimes.
Outra é sentir a dor das correntadas nos braços enquanto nos agachamos
junto a parede, em posição fetal, implorando por socorro e torcendo e
rezando para que os agressores não puxem facas ou revólveres para
“terminar ali o serviço” .
Felizmente para mim, meus
companheiros acorreram em meu auxilio, me levaram a um posto de
gasolina, onde recebi os primeiro cuidados, onde meu rosto foi limpo,
onde tentava desesperadamente limpar meus cabelos claros tingidos de
vermelho pelo sangue que jorrava de um ferimento profundo na cabeça- a
população LGBT é a única que não sabe como será recebida em casa depois
de um avento deste tipo e não queria deixar minha mãe preocupada.
Muitos não tem essa sorte. Muitos não voltam para casa.
Espero
que meu relato sirva de alerta as autoridades (mais um) você sabe onde
está seu/sua filho(a)? Estaria ela ou ele procurando alguma alvo frágil
para descontar sua raiva, ou sendo espancado covarde e inocentemente,
simplesmente por ter um “comportamento” que alguns acham que tem o
direito “divino” de punir ? E espero que as autoridades façam alguma
coisa para impedir que casos destes continuem acontecendo. Seja como
for aprendi da pior (ou melhor) e mais dolorosa maneira a minha grande
lição sobre o que é homo/lesbo/transfobia: literalmente na ‘base do
porrada’. Espero que o caro leitor ou seus próximos não precise passar
pelo mesmo sofrimento.
De acordo com o último relatório do Projeto de Monitoramento de Assassinatos de Pessoas Trans, que controla o número destes tipos de crimes em 42 países, de janeiro de 2008 até dezembro de 2010, no Brasil foram cometidos 227 homicídios dos 539 registrados.
Não queremos que o governo faça propaganda de "opção sexual", queremos que apenas garanta os direitos básicos de cidadãos que são marginalizados por uma sociedade hipócrita e cruel.
terça-feira, 31 de maio de 2011
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Não acredito no Deus deles....
No Brasil, o que prevalece é o interesse
pessoal na maioria dos políticos. O brasileiro não tem uma ideologia política e
é incapaz de se identificar com seus representantes. Votam aleatoriamente sem
mesmo conhecer as propostas dos candidatos. Temos eleições a cada dois anos, e
mesmo antes de chegar a urna outra vez, o brasileiro não recorda do seu último
sufrágio.
Sou petista de coração, pois a ideologia e
as políticas adotadas por governantes deste partido são as que me sinto mais identificado. Fiz de
forma voluntária, campanha para a presidenta Dilma Rousseff, pois ela era a
única candidata que poderia substituir o ex-presidente Lula. Até agora, acompanhando
a forma dela de governar, estava plenamente satisfeito. Mas ontem, acabei tendo
uma decepção.
Posso entender as articulações políticas e
também o cenário de outra crise inventada pela imprensa. Mas usar como moeda de
troca, um kit educacional que promove o respeito à diversidade, no país onde
mais se cometem crimes contra as pessoas homossexuais, é inconcebível. Que a
presidenta se torne refém da bancada de fundamentalistas do Congresso é
preocupante para todos que desejam que o nosso país avance nos Direitos
Humanos.
O kit anti-homofobia, desenvolvido pelo MEC
e avalado pela UNESCO propunha reduzir nas escolas o bullying contra os
homossexuais, evitando assim, que pessoas, cuja orientação sexual seja
diferente do que é estabelecido como normal ( o que é ser normal?) não tenham
que abandonar os estudos.
É na escola onde aprendemos o senso comum
de civismo. Uma boa educação garante um cidadão civilizado e, logo, uma
sociedade melhor.
Suspender o kit anti-homofobia significa um
grande retrocesso. Quem ganha são os que se dizem cristãos; “defensores da
família, moral e bons costumes” e que não se envergonham sequer de expressar de
forma explícita suas atitudes e argumentos homofóbicos.
É inadmissível que tenhamos que ser pautados
pelos dogmas religiosos dessa gente fanática e principalmente CANALHA. Porque os
valores cristãos são opostos do que eles fazem cotidianamente.
Se conseguiram suspender o kit, fica mais
difícil de crer que a PL 122 seja aprovada.
Confio nos valores humanos da presidenta
Dilma Rousseff, sei que apesar do ambiente gris que ronda Brasília nessas
últimas semanas, ela fará uma auto-crítica e irá procurar alguma forma de
respeitar o voto de todos aqueles que viram nela, a esperança de viver num país
menos preconceituoso.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Santos, bicampeão paulista 2011
Não há palavras para descrever a alegria e a emoção de ver o Santos conquistar mais um campeonato paulista. Não tem explicação, essas coisas apenas se sentem.
Parabéns aos meninos da Vila Belmiro que jogaram com superioridade. Destacar apenas a genialidade de Neymar seria uma injustiça com o resto da equipe. Todos brilharam individualmente e em grupo, fizeram um bom trabalho. Muricy tem exercido o seu papel com muita sabedoria, desde que entrou no Santos, tem feito uma diferença bastante visível.
Agora é só esperar o jogo de quarta-feira para continuar sonhando com a Libertadores!
Hino do Santos
Parabéns aos meninos da Vila Belmiro que jogaram com superioridade. Destacar apenas a genialidade de Neymar seria uma injustiça com o resto da equipe. Todos brilharam individualmente e em grupo, fizeram um bom trabalho. Muricy tem exercido o seu papel com muita sabedoria, desde que entrou no Santos, tem feito uma diferença bastante visível.
Agora é só esperar o jogo de quarta-feira para continuar sonhando com a Libertadores!
Hino do Santos
Sou alvinegro da Vila Belmiro
O Santos vive no meu coração
É o motivo de todo o meu riso
De minhas lágrimas e emoção
Sua bandeira no mastro é a história
De um passado e um presente só de glórias
Nascer, viver e no Santos morrer
É um orgulho que nem todos podem ter
No Santos pratica-se o esporte
Com dignidade e com fervor
Seja qual for a sua sorte
De vencido ou vencedor
Com técnica e disciplina
Dando o sangue com amor
Pela bandeira que ensina
Lutar com fé e com ardor
Composição : Carlos Henrique Roma Em Julho De 1957
O Santos vive no meu coração
É o motivo de todo o meu riso
De minhas lágrimas e emoção
Sua bandeira no mastro é a história
De um passado e um presente só de glórias
Nascer, viver e no Santos morrer
É um orgulho que nem todos podem ter
No Santos pratica-se o esporte
Com dignidade e com fervor
Seja qual for a sua sorte
De vencido ou vencedor
Com técnica e disciplina
Dando o sangue com amor
Pela bandeira que ensina
Lutar com fé e com ardor
Composição : Carlos Henrique Roma Em Julho De 1957
sábado, 7 de maio de 2011
STF reconhece união gay no Brasil
Dia 05 de maio de 2011, dia histórico não
somente para a comunidade LGBT, mas também para toda a sociedade brasileira. O
Supremo Tribunal Federal aprovou por unanimidade a união civil de homossexuais.
O STF exerceu com exatidão o papel real que
lhe corresponde: defender a justiça. E assim foi. Estávamos cansados da omissão
do legislativo, afinal, são poucos os políticos que se atrevem a defender uma
causa considerada tão polêmica, visando sempre seus próprios interesses
eleitorais. Também estávamos esgotados de ver nossos direitos negados, pautados
por fundamentos religiosos.
Ontem, acompanhando a votação ao vivo,
acabei me emocionando, como disse minha amiga Lídia, com a aula de Direito que
foi dada ali, na Suprema Corte. Os direitos humanos foram defendidos de forma
clara. Das inúmeras frases dos discursos dos ministros, a que adorei ter ouvido
foi dita pelo Ministro Celso Mello, onde expressava que a teologia moral é
respeitável, mas não pode interferir nas decisões adotadas por juízes e
autoridades.
A equiparação de direitos dos casais
heterossexuais aos homossexuais não afeta negativamente a ninguém. Qualquer
crítica é meramente construída em questões morais concebidas por fatores
religiosos. Em um Estado de direito laico e democrático, nenhuma bíblia deve pautar a
justiça.
Estou feliz com a decisão do STF. Contente em
ver que meu país está evoluindo. Para que uma nação possa ser respeitada, ela
deve, antes de qualquer coisa, respeitar a si mesma.
Parabenizo e agradeço a todos os militantes LGBTs, pois sem eles, permaneceríamos marginalizados e não teríamos nossos
direitos reconhecidos. Ainda há um longo caminho pela frente, essa é só uma das
inúmeras vitórias que precisamos para vivermos de uma forma mais justa e digna.
domingo, 1 de maio de 2011
Todo sentimento...
Às vezes existem sintonias entre duas pessoas que até pouco tempo eram desconhecidas, que acabam impressionando. Não há explicação para tantas afinidades e empatia. Como dizia Nelson Rodrigues, "Deus está nas coincidências". Talvez realmente estamos todos destinados a entrarmos e sairmos das vidas de pessoas que aparecem ao longo do nosso caminho e provavelmente há uma estrutura realmente estabelecida para que isso aconteça. Não sabemos.
"Todo sentimento
Precisa de um passado pra existir
O amor não:
Ele cria como por um encanto
Um passado que nos cerca,
Ele nos dá a consciência de havermos vivido anos a fio
Com alguém que a pouco era quase um estranho,
Ele supre a falta de lembranças por uma espécie de mágica..."
(Benjamin Constant)
"Todo sentimento
Precisa de um passado pra existir
O amor não:
Ele cria como por um encanto
Um passado que nos cerca,
Ele nos dá a consciência de havermos vivido anos a fio
Com alguém que a pouco era quase um estranho,
Ele supre a falta de lembranças por uma espécie de mágica..."
(Benjamin Constant)
sábado, 16 de abril de 2011
Maria Gadú: outra joia da nossa MPB
Há exatamente um ano, estava no Brasil,
apresentando o livro “O Teatro dos Anjos”. Foi durante a minha estância na
minha pátria querida e idolatrada, que escutei finalmente o primeiro disco de
Maria Gadú, através do meu amigo Eluane.
Mesmo morando em outro país, sempre estou
antenado à atualidade brasileira, e como bom amante da música que sou, já sabia
sua história e havia ouvido algumas canções através do You Tube.
Gadú surpreende. Seu aspecto físico revela
certa rebeldia. Quando a vi pela
primeira vez, pensei que seu estilo fosse agressivo. Quando a escutei, veio a
surpresa. A doçura de sua voz nos convida a momentos mais singelos. É calmo
ouví-la. A beleza de sua voz é embriagadora.
Mas a sensibilidade dessa moça se equipara
à grandeza de sua voz. Quando descobri que o disco era totalmente autoral, foi
inevitável não admirá-la de forma imediata. Principalmente quando ouvi “Dona
Cila”, composta pela cantora quando ainda era uma adolescente. Apesar da pouca
idade, a letra dessa música demonstra a maturidade emocional que ela possui.
Lidar com a morte das pessoas que amamos não é fácil. Ela soube transformar sua
dor em pura poesia, característica intrínseca dos grandes artistas.
Essa canção feita para a avó, um mês antes
de seu falecimento, tocou fundo a minha alma. Uma linda homenagem para a mulher
que a inspirou a cantar e, que também era cantora, lírica, mas que infelizmente
perdeu a voz pela ingestão de um produto químico. Ficou a frustração de não realizar
alguns sonhos, entre eles, cantar em um teatro municipal e desfilar no
Sambódromo da Marquês de Sapucaí, como baiana. Desejos que são cumpridos no
clipe da música, onde a atriz Neusa Borges interpreta a protagonista da
história: Dona Cila.
A impossibilidade da realização dos sonhos,
que sempre são próprios, acaba causando uma grande insatisfação em todos nós.
Conviver com essa frustração é um grande exercício para nossa própria evolução
e equilíbrio. Nem sempre conseguimos o que queremos. Mas a vida em si é muito mais
ampla do que qualquer desejo. Ganhamos e perdemos constantemente. Acredito que dona
Cila deve estar bem orgulhosa de ver que sua neta, Maria Gadú, entrou no rol
dos grandes artistas da nossa música popular brasileira. Cada indíviduo é único
e exclusivo, mas o amor é o elo que faz com que sejamos a extensão das pessoas
que amamos.
Dedico essa canção à minha saudosa avó
Madalena... “Oh meu pai do céu/limpe tudo aí/vai chegar a rainha/precisando
dormir...”
sexta-feira, 8 de abril de 2011
O professor de Aristóteles
Outra vez. Quando já não recordava o
professor de Aristóteles, ele veio como uma flecha e fez o cupido sorrir. O
órgão que impulsa o sangue acelerou e desde então não descansa em paz. É festa,
é confusão, um tumulto incoercível de sensações.
A razão faleceu, mas a moral ainda resiste.
O egoísmo se confunde com o altruísmo. Pura bagunça. Onde irão parar esses
pensamentos ansiosos por um único destino? Parece que não existem outras portas
e o uniteralismo desse desejo indica não haver fim. Um oceano doce de mares
salgados.
O que não daria por poder tocá-lo e vê-lo
sorrir. A felicidade é a moeda de troca nesses devaneios ousados, alheios à
realidade. A puerilidade é essência pura nesse retrocesso aos anos
adolescentes.
Como alguém pode estremecer e liberar
zilhões de vibrações com um simples olhar? Essa força respalda e é a própria
expressão em si mesma da existência de Deus.
Nessa espécie de montanha mágica que é o
seu corpo, a luz que o seu riso produz ilumina até as trevas da noite em suas
matas. Tê-lo nos braços com o dente da paz é a ilusão que exerce o papel de
combustível para mover as pernas que caminham contrárias à tirania do tempo. O
despotismo do relógio.
Não houve atração igual. Não há necessidade
de comparar. Algo dessa proporção não conhece limites e não entende de escalas
matemáticas. É multiplicar infinitamente de forma simultânea a dividir.
A compreensão da situação de Osment (by
Spierlberg) vem de forma exata, agora. Talvez encontre o que busque,
submergendo ao reino da vida. Mas se encontrar, a coroa será
recíproca nessa angústia de felicidade?
A minha selva já tem um rei.
terça-feira, 5 de abril de 2011
"The Rose" interpretada por Aoi Teshima
Alguns dizem que o amor, é um rio,
que afoga a relva macia.
Alguns dizem que o amor, é uma navalha,
que deixa a sua alma sangrando.
Alguns dizem que o amor, é uma fome,
uma necessidade dolorosa que nunca acaba.
Eu digo que o amor, é uma flor,
Em você ele é somente uma semente.
É o coração, receoso de quebrar,
que nunca, aprende a dançar.
É o sonho, receoso de acordar,
que nunca, aproveita a chance.
É o único, que não pode ser pego,
por quem não pode, parecer entregar.
E a alma, receosa de morrer,
que nunca, aprende a viver.
Quando a noite houver, sido solitária,
e a estrada, longa.
E você pensar que o amor é somente,
para o afortunado e para o forte.
Apenas lembre-se que no inverno,
distante sob a neve amarga,
encontram-se as sementes que amam o sol.
E que na primavera se tornam rosas.
que afoga a relva macia.
Alguns dizem que o amor, é uma navalha,
que deixa a sua alma sangrando.
Alguns dizem que o amor, é uma fome,
uma necessidade dolorosa que nunca acaba.
Eu digo que o amor, é uma flor,
Em você ele é somente uma semente.
É o coração, receoso de quebrar,
que nunca, aprende a dançar.
É o sonho, receoso de acordar,
que nunca, aproveita a chance.
É o único, que não pode ser pego,
por quem não pode, parecer entregar.
E a alma, receosa de morrer,
que nunca, aprende a viver.
Quando a noite houver, sido solitária,
e a estrada, longa.
E você pensar que o amor é somente,
para o afortunado e para o forte.
Apenas lembre-se que no inverno,
distante sob a neve amarga,
encontram-se as sementes que amam o sol.
E que na primavera se tornam rosas.
domingo, 3 de abril de 2011
Jair Bolsonaro, perfil de um ditador
Espero que um dia a homofobia cause tanta
indignação como o racismo no Brasil. E seria ingenuidade ou até mesmo
ignorância acreditar que as diferenças étnicas vivem em plena harmonia na
sociedade mais miscigenada do planeta. Discriminar alguém pela sua cor de pele
só passou a ser politicamente incorreto quando isso tornou-se um crime. Isso
não significa que esse comportamento deixou de existir. Enquanto a desigualdade
de oportunidades existir entre brancos e negros, não podemos considerar esse
problema erradicado. Ainda há um longo caminho pela frente. E que por mais
longo que seja, é bem menor que o percurso que as pessoas homossexuais tem de
caminhar para conseguir o real respeito à sua cidadania.
Há muito tempo, Jair Bolsonaro me produz
muita indignação. Mas, parafraseando o grande Marthin Luther King, “o que me
preocupa não é o barulho dos ruins e sim o silêncio dos bons”, vejo com
consternação a normalidade que é colocar no patamar inferior, o coletivo LGBT.
Qualquer pessoa pode humilhar e diminuir os gays publicamente sem nenhuma
punição. O deputado do Partido Progressista (não consigo entender realmente o
conceito que essa gente tem de progresso), ao longo de sua vida militar e
política, sempre teceu ofensas e comentários pejorativos às pessoas que não se
encaixam ao seu padrão arcaico e encerrado. Machista, homofóbico, racista,
enfim, uma pessoa que por muitas virtudes que poderia ter, não merece nenhum
tipo de respeito. Mas infelizmente existe um número expressivo de pessoas que
se identificam com ele. Foi eleito vereador na cidade do Rio de Janeiro em
1988, dois anos depois deputado federal e continua exercendo esse cargo há mais
de 20 anos.
A primeira vez que ouvi falar desse sujeito
foi em 2003, quando ele empurrou e chamou de vagabunda a atual Ministra da
Secretaria dos Direitos Humanos, Maria do Rosário (PT), na época, deputada
federal eleita pelo Estado do Rio Grande do Sul, no Congresso Nacional, diante
das câmeras. O incidente repercutiu no país inteiro, mas não houve nenhuma
penalização por esse comportamento.
Mulheres, índios, gays, negros e todas as
pessoas com ideologia esquerdista sempre
foram alvos do homem que defende abertamente a Ditadura Militar no Brasil. Mas
parece que a ideia de que os homossexuais possam conquistar os seus direitos
correspondentes como todos cidadãos, tira o sono do deputado que parece viver
uma eterna prisão de ventre.
Poderia especular sobre a perseguição dele
aos homossexuais, baseado nas teorias de Freud, mas nunca quis me aprofundar
sobre isso. Os complexos que ele esconde dentro de sua mente retrógrada não me
interessam. O que importa mesmo é que a sociedade brasileira que pretende
avançar nos direitos humanos faça a sua parte. É inadmissível ter uma pessoa
que está para servir à população, ataque as minorias, ignorando completamente
que uma nação é construída por uma diversidade de pessoas e que todas elas,
independente da religião, gênero, sexualidade, classe social e idade, merecem
igualmente serem respeitadas.
No ano passado, numa tentativa desonesta, o
homem que carece de valores básicos humanos, conseguiu levar à imprensa a ideia
derturpada do projeto do kit educacional anti-homofobia e pró-diversidade,
taxando-o de forma pejorativa como “kit gay”.
A ignorância e o deputado são sinônimos. Está mais do que demonstrado
que não se pode fazer apologia à nenhuma condição sexual, porque se assim
fosse, não existiria a comunidade GLBT. É impossível fomentar orientação
sexual, cada um tem a sua. Não é uma questão de educação, como acredita esse
deplorável ser. O deputado acéfalo
defendeu a violência como forma corretiva. Aconselhou a todos os pais de
homossexuais a agredirem fisicamente os filhos para os “endireitarem”. Mais triste que ver esse homem vomitando
palavras incoerentes foi ler nas notícias, semanas depois, que um pai matara
seu próprio filho, no interior paulista, pelo rapaz assumir sua condição
sexual. E é mais lamentável ver a passividade
das pessoas que são contrárias à suas ideias.
Foi necessário ele ter expressado sua
opinião racista à uma pessoa famosa para que ganhasse o repúdio de muita gente.
Infelizmente a homofobia no Brasil não é considerada um crime como é o
preconceito racial. Se assim fosse, esse homem estaria preso, merecidamente. A
sexualidade humana não pode ser fomentada, é algo inerente a cada indíviduo. É
própria. Agora o respeito sim, pode e deve ser inserido no código de ética de
todo mundo.
Respeito opiniões que divergem das minhas
desde quando as mesmas não contribuam para o preconceito. A discriminação não é
um mero fato de opinar, é uma violência.
Eu assinei uma petição pública para que o dito cujo seja penalizado pelo seu comportamento. Qualquer pessoa que se sinta ofendida ou solidária aos ofendidos, deixo o endereço para que possam firmar e divulgar.
http://www.peticaopublica.com/?pi=P2011N8333
sexta-feira, 1 de abril de 2011
O fim da luta
No dia 29 de março, recebi inúmeras mensagens informando sobre a morte de José Alencar. Estava no trabalho e não tinha como ver a notícia. Fiquei triste, pois me lembrei de uma entrevista que ele concedeu, onde dizia que sua maior alegria seria chegar em casa e dizer à sua esposa que estava curado.
O homem de origem humilde que se transformou em um dos maiores empresários do nosso país, foi vice do presidente mais popular da nossa história, o Lula. E, apesar de algumas divergências ideológicas entre eles, exerceu seu papel como um verdadeiro político. O afeto que havia entre os dois era visível e a admiração recíproca também.
Lembro bem da última campanha presidencial, mesmo doente, Alencar foi um dos maiores militantes de Dilma. Não deixou-se abater pelo câncer e tampouco encerrou-se ao seu drama, demonstrou que, mesmo em um momento extremamente delicado de sua vida, a preocupação pelo destino do Brasil era uma das suas maiores causas.
Não nego minha insatisfação quando ele, na condição de presidente em exercício, não assinara o decreto que instituiria o Dia Nacional de Combate à Homofobia, alegando questões de princípios partidários. Mas na condição de ser humano, não escondo a solidariedade que sentia por ele. O câncer é uma doença cruel que mata milhões de pessoas a cada ano no mundo inteiro. Vê-lo lutando de forma incansável me despertava naturalmente a torcida para que ele ficasse bem.
Foi uma das peças fundamentais para a eleição e reeleição de Lula. Contribuiu muito para a vitória de Dilma. Foi o homem que soube estar. E com certeza, um dos políticos que entrará para a nossa história com uma avaliação bastante positiva.
O homem de origem humilde que se transformou em um dos maiores empresários do nosso país, foi vice do presidente mais popular da nossa história, o Lula. E, apesar de algumas divergências ideológicas entre eles, exerceu seu papel como um verdadeiro político. O afeto que havia entre os dois era visível e a admiração recíproca também.
Lembro bem da última campanha presidencial, mesmo doente, Alencar foi um dos maiores militantes de Dilma. Não deixou-se abater pelo câncer e tampouco encerrou-se ao seu drama, demonstrou que, mesmo em um momento extremamente delicado de sua vida, a preocupação pelo destino do Brasil era uma das suas maiores causas.
Não nego minha insatisfação quando ele, na condição de presidente em exercício, não assinara o decreto que instituiria o Dia Nacional de Combate à Homofobia, alegando questões de princípios partidários. Mas na condição de ser humano, não escondo a solidariedade que sentia por ele. O câncer é uma doença cruel que mata milhões de pessoas a cada ano no mundo inteiro. Vê-lo lutando de forma incansável me despertava naturalmente a torcida para que ele ficasse bem.
Foi uma das peças fundamentais para a eleição e reeleição de Lula. Contribuiu muito para a vitória de Dilma. Foi o homem que soube estar. E com certeza, um dos políticos que entrará para a nossa história com uma avaliação bastante positiva.
domingo, 27 de março de 2011
Esconderijo
Nesse quarto escuro
Existe um menino assustado
Ele é sozinho
E teme que o mundo encontre o seu cantinho
Entrega ele pra cuidar
Eu sei guardar segredo
Eu sei amar
Não conto pra ninguém
Que esse menino é alguém
De barba e gravata e que esse quarto escuro é sua alma
Esconderijo (Sandy Leah)
Não encerro os artistas em conceitos e tampouco considero menores os que não me despertam simpatia. Sandy tem evoluido na sua carreira e valorizo a sensibilidade dela quando escreve. Quando ouvi "Esconderijo", adorei. A letra expressa a realidade do medo que sente muita gente que reconhecemos como pedante. Acredito que todo pernóstico esconde uma criaturinha assustada e complexada dentro de si.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Os olhos violetas se fecham para sempre
Não posso deixar de registrar minha profunda tristeza pelo falecimento de uma das pessoas mais incríveis dos úlitmos tempos. Além da relevância da carreira artística, Elizabeth Taylor demonstrou ao longo de sua vida, qualidades humanas que carece a maioria dos mortais. Lutou de forma veemente contra a propagação da AIDS e foi uma das maiores ativistas da causa LGBT. Se dez por cento das grandes estrelas tivessem a mesma sensibilidade dessa grande mulher, o mundo seria um lugar mais agradável para se viver.
O cinema perde uma grande estrela. A humanidade perde um pouco da sua própria essência. Goodbye Miss Taylor!
O cinema perde uma grande estrela. A humanidade perde um pouco da sua própria essência. Goodbye Miss Taylor!
quinta-feira, 17 de março de 2011
Brasil: epicentro de assassinatos de pessoas LGBT?
Eu acabei de assinar uma petição pedindo o apoio à Presidente Dilma Roussef para a aprovação da lei Anti-Homofobia que está sendo discutida no Congresso-PL 122. Você sabia que o Brasil registra hoje os maiores indices de violência contra homossexuais e é o numero 1 no mundo em crimes contra travestis e transexuais?
No início deste mês, uma jovem travesti chamada Priscila foi morta à tiros em Belo Horizonte, o mais recente caso de uma onda de crimes perpetuados contra transexuais no país. A violência vem aumentando, mas nós podemos lutar contra.
Você se unirá a nós pedindo à Presidente Dilma Roussef, que tem afirmado que direitos humanos são a prioridade no seu governo, para apoiar a lei Anti-Homofobia? Se a Presidente Rouseff almeja que o Brasil seja visto como o lider dos direitos humanos no cenário mundial, ela precisa trabalhar duro para assegurar que TODOS os brasileiros tenham proteção igual perante a lei. Assista a esse video emocionante sobre a Priscila e assine a petição:
www.allout.org/pt/petition/priscila
terça-feira, 15 de março de 2011
Eu e o Mar
Como o rumor do mar dentro de um búzio
O divino sussurra no universo
Algo emerge: primordial projecto.
Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
Mar sonoro, mar sem fundo mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
As árvores longínquas da floresta
Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Homem livre, o oceano é um espelho fulgente
Vós sois, ambos os dois, discretos tenebrosos;
E há séculos mil, séc'ulos inumeráveis,
Na melancolia de teus olhos
Eu me perco em carícias de água
E durmo escutando em vão
O silêncio.
E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas
Náufrago entregue ao fluxo forte
Da morte.
(Vinicíus de Moraes)
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar...
O divino sussurra no universo
Algo emerge: primordial projecto.
Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
Mar sonoro, mar sem fundo mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
(Sophia de Mello Breyner e Andresen)
Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?
Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.
As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, 'star em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta.
Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.
Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?
(Fernando Pessoa)
O Homem e o Mar
Homem livre, o oceano é um espelho fulgente
Que tu sempre hás-de amar. No seu dorso agitado,
Como em puro cristal, contemplas, retratado,
Teu íntimo sentir, teu coração ardente.
Gostas de te banhar na tua própria imagem.
Dás-lhe beijo até, e, às vezes, teus gemidos
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos,
As queixas que ele diz em mística linguagem.
Dás-lhe beijo até, e, às vezes, teus gemidos
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos,
As queixas que ele diz em mística linguagem.
Vós sois, ambos os dois, discretos tenebrosos;
Homem, ninguém sondou teus negros paroxismos,
Ó mar, ninguém conhece os teus fundos abismos;
Os segredos guardais, avaros, receosos!
E há séculos mil, séc'ulos inumeráveis,
Que os dois vos combateis n'uma luta selvagem,
De tal modo gostais n'uma luta selvagem,
Eternos lutador's ó irmãos implacáveis!
(Charles Baudelaire)
Na melancolia de teus olhos
Eu sinto a noite se inclinar
E ouço as cantigas antigas
Do mar.
Nos frios espaços de teus braços
Eu me perco em carícias de água
E durmo escutando em vão
O silêncio.
E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas
Náufrago entregue ao fluxo forte
Da morte.
(Vinicíus de Moraes)
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar...
domingo, 6 de março de 2011
"El Rastro" de Madri
Todos os domingos e a maioria dos feriados,
abro a janela da sala e observo a maré humana que percorre as ruas do meu
bairro. Moro no centro de Madri onde acontece
a maior feira a céu aberto da Espanha.
Em 1497 foi instalado o primeiro matadouro
municipal neste lugar. O nome “El Rastro” foi concebido devido ao rastro de
sangue deixado pelas reses, que escorria ladeira abaixo para terminar no
Manzanares, principal rio da capital espanhola.
O mercado medieval ao ar livre é um dos
pontos turísticos mais visitados da península ibérica. É impossível classificar
todos os artigos que são comercializados nessa gigante feira do rolo. Quadros,
livros, móveis, objetos de decoração, muitas antiguidades e também novidades. Produtos novos e usados, coisas que a gente
nem sonha que ainda existam ou nem imaginava que existissem. E o que
caracteriza esse tipo de comércio pelo mundo afora, não poderia deixar de ser
igual no “Rastro” madrilense: preço barato. E ainda assim, pechinchar também é
outra característica que não pode faltar.
É na madrugada que os comerciantes começam
a montar suas barracas. A partir das sete da manhã, as pessoas começam a chegar.
“Ribeira dos Curtidores” é a rua principal do mercado, e os quarteirões
paralelos à ela constroem a própria feira em si, onde a maioria dos produtos
são expostos no chão das calçadas, o que não ocorre na “Ribeira”, pois nela as
barracas são “obrigatórias”.
O maior cuidado que o visitante deve ter é o mesmo recomendado em todos os lugares
turísticos do mundo: tomar conta da carteira e da bolsa. Os carteiristas estão
por todas as partes e, apesar do policiamento reforçado, a cada domingo, vários
turistas acabam tendo o desgosto de serem furtados.
O fluxo de gente atinge o seu ápice ao meio
dia e duas horas depois, começa a diminuir gradativamente e, às quatro horas da
tarde, os comerciantes já estão recolhendo suas mercadorias. É nessa hora que
os bares do bairro vizinho, “La Latina”, começam a encher. É o momento para o
aperitivo, descanso e descontração com a família e os amigos.
Além dos eventos dominicais, “El Rastro” é
um bairro conhecido também pelos brechós, sebos e antiquários que funcionam
diariamente. Está localizado no centro
histórico de Madri, onde a cidade foi construída e definida como capital da
corte espanhola.
Quando vier por aqui, tenha o cuidado
especial para programar um domingo por essa região que é a mais castiça, a mais
madrilena.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Javier Bardem, "Biutiful" e "Uonderful"
Embora o Oscar seja considerado o prêmio da
indústria cinematográfica, cujos critérios são questionados constantemente, não
podemos negar a evidência de que qualquer profissional do cinema que seja
indicado a concorrer a estatueta dourada entra no rol da consagração.
Em 2001, Javier Bardem foi indicado ao
Oscar de melhor ator por interpretar o escritor cubano Reinaldo Arenas no filme
“Antes que Anochezca” (Antes do Anoitecer) e a partir disso o seu nome passou a
ser conhecido internacionalmente.
Javier vem de uma família ilustre de
artistas. Sua árvore genealógica está formada por grandes nomes do cinema e do
teatro espanhol. Sua estreia na tela grande foi aos onze anos, com uma pequena
participação em "El poderoso influjo de la Luna" (O Poderoso Influxo da Lua), protagonizada
pela sua mãe, Pilar Bardem. Teve aparições esporádicas em algumas séries de
televisão nos anos oitenta e em 1990 voltou a aparecer no cinema, em “Las
edades de Lulú” (As Idades de Lulú), de Bigas Luna. Trabalhou sob a direção de
Pedro Almodóvar, no ano seguinte, no filme “Tacones Lejanos” (De Salto Alto) e
em 1992 tornou a atuar sob o mando de Bigas Luna, protagonizando com Jordi
Mollá e Penélope Cruz, “Jamón, Jamón” (Presunto, Presunto), filme que os projetaram à fama em esfera nacional, apesar das
críticas.
Trabalhou com os maiores cineastas espanhóis
ao longo de sua carreira e depois de protagonizar a película de Alejandro
Amenábar, “Mar Adentro”, chamou a
atenção de diretores de outros países, pelo seu excelente trabalho.
Sua segunda indicação ao prêmio mais
cobiçado do cinema mundial foi em 2007, por seu papel em “Onde os Fracos Não
Têm Vez”, como ator coadjuvante e conseguiu levá-lo para casa, tornando-se
o primeiro ator espanhol a receber um Oscar.
Para
mim, Javier Bardem é um ator completo e recebo com grande alegria a notícia de
que foi indicado pela terceira vez ao Oscar, pelo seu trabalho em “Biutiful”,
do mexicano Alejandro González Iñárritu . Isso é sinônimo de que sua carreira está
mais que consolidada.
Na vida
pessoal, ele também deve estar muito feliz. Casado com a atriz espanhola mais internacional, Penélope Cruz (também
ganhadora de um Oscar), acabam de ser pais de um menino. Se o primogênito do
casal seguir o caminho dos progenitores, o sobrenome Bardem continuará
brilhando nas telas espanholas e do mundo.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Ofra Haza
A voz de Ofra Haza penetra pelo coração e faz a alma tremer.
Nascida em Tel Aviv, filha de judeus iemenitas, Ofra foi uma das cantoras mais relevantes de Israel.
Em 1974, ganhou um concurso musical de esfera nacional em seu país, quatro anos depois, lançou seu primeiro disco. Em 1983 participou no Festival Eurovisão e ficou em segundo lugar.
Nos anos seguintes, optou por diversificar seu gênero musical, alternando o pop com um estilo mais étnico, cantando em árabe, hebraico e aramaico.
Com a finalidade de alcançar projeção internacional, em 1987, mudou-se para os Estados Unidos, mas não deixou de manter relação estreita com sua terra natal.
No final da década de oitenta, com a música "Im Nin' Alu" (alguns trechos da canção é interpretada em inglês, com sonoridades do Médio Oriente) fez sucesso na Europa, Canadá, Estados Unidos e Japão.
Foi nomeada para os Grammy nos anos noventa. Participou da cerimônia de atribuição do Prêmio Nobel da Paz, em 1994, onde foram ganhadores Yasser Arafat, Shimon Perez e Yitzhak Rabin, por motivo do Acordo de Paz de Oslo.
Em mais de duas décacas de carreira, Ofra nos brindou com uma discografia ampla e eclética. Independente do estilo que cantava, a sua voz foi seu maior instrumento.
No dia 23 de fevereiro de 2000, Ofra Haza perdia a vida em decorrência as complicações associadas ao HIV, embora a família nunca confirmou as circunstâncias de sua morte.
Escutei Ofra Haza por primeira vez quando assisti o filme francês "A Rainha Margot" (com Isabelle Adjani). Quando os créditos da película aparecem, surge a voz dela cantando "Eloi Hai", em hebraico.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Movida Madrileña
“...Segue a movida madrileña
Também te mata Barcelona
Napoli, Pino, Pi, Paus, Punks...”
Também te mata Barcelona
Napoli, Pino, Pi, Paus, Punks...”
Na canção “Vaca Profana”, Caetano Veloso
menciona a movida madrileña em uma de suas estrofes e provavelmente, graças a
essa espécie de mosaico cultural em forma de música, é que a maioria dos
brasileiros ouviu falar sobre o assunto por primeira vez.
Na Espanha, os anos sessenta e setenta,
foram vividos todos juntos, nos anos 80. Depois da opressão de uma ditadura de
quase quarenta anos (1939-1975), Madri foi o cenário da grande revolução
cultural que ocorreu naquela época e que logo se espalhou para o resto do país,
em plena fase de transição à democracia. A movida madrileña foi o movimento
punk espanhol.
No dia 09 de fevereiro de 1980, na Escola
de Caminhos da Universidade Politécnica de Madri, vários cantores jovens se
uniram para a realização de um show com a finalidade de homenagear a José
Enrique Cano, o “Canito”, baterista do grupo “Tos” (que logo passou a se chamar
“Los Secretos”), que perdera a vida ao ser atropelado por um carro no reveillón
de 1979. Não eram conscientes de que o evento seria considerado oficialmente,
tempos depois, como o início da “movida”.
Televisionado pela TV estatal espanhola, a apresentação dos grupos
chocou aos que estavam acostumados a um padrão estético mais conservador e os agrediram com a falta de harmonia e qualidade nas canções
apresentadas por músicos inexperientes.
A movida teria acontecido de qualquer
maneira, independente do show daquele dia. Através da música, cinema,
televisão, poesia, fotografia e outras formas de expressões, vários artistas
manifestaram livremente suas ideias e inquietações. Foram seguidos por uma
sociedade que carecia de novidade e criatividade.
O ambiente daquela época era de que tudo
era permitido. A cultura dos bares e discotecas, evidenciou a bohemia e o que
poderia ser considerado extravagante.
Na televisão, o programa “La Edad de Oro”, dirigido
e apresentado por Paloma Chamorro, foi a maior vitrine da movida madrileña e a
jornalista, consequentemente, sua maior musa. Nele, os entrevistados falavam
sobre sua arte sem nenhuma censura. Também declaravam o uso habitual de várias
drogas como estimulantes para a criação. Tudo era possível e divertido.
Pedro Almodóvar foi a maior estrela que surgiu naquela época e
que alcançou projeção internacional e que se mantém até hoje no estrelato. Atuava no teatro e era cantor de rock-punk,
onde se apresentava travestido ao lado de Fábio McNamara. Como diretor, cultuou
o marginal em seus filmes de forma ácida e crítica. Em sua filmografia, não há
nenhum drama sem comédia e nenhuma comédia sem drama. Soube colocar os
holofotes para a realidade do subterrâneo e que para a maioria dos
conservadores e otimistas, era apenas o surrealismo de um jovem desvairado.
A Espanha precisava mudar sua imagem de
careta e reprimida. Necessitva se livrar dos resquícios da mão dura de Franco. Por
isso, toda a transgressão foi respaldada principalmente pela classe política de
esquerda. Queriam mostrar um país democrático, novo e principalmente, moderno.
É difícil sintetizar a importância da
movida. Aqueles anos foram complexos e deixaram de herança uma multipluralidade de tendência e comportamento. É
uma delícia esmiuçar o universo daquela época. No youtube, podemos ver
apresentações de vários grupos musicais, entrevistas, inclusive, os programas
de Paloma Chamorro. Mergulhar no passado recente da Espanha nos ajuda a
entender melhor o seu presente. E constatando a eficiência da teoria de que no
mundo tudo é cíclico, compreendemos a falta atual de grandes novidades por
aqui.
sábado, 1 de janeiro de 2011
Feliz 2011
É bom começar o ano cheio de emoções. A despedida de Lula do poder e a posse de Dilma Rousseff proporcionaram imagens que entram para a história da nossa política.
Que a primeira presidente eleita saiba dar continuidade aos acertos de Lula e que também possa corrigir as pequenas falhas.
Glückliches Neues Jahr
Nytar
Feliz Año Nuevo
Felicigan Novan Jaron
Heureuse Nouvelle Année
Feliz Aninovo
Shaná Tová
Happy New Year
Felice Nuovo Anno
Akemashite Omedetou Gozaimasu
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